Fonte: Programa Geral do encontro Portugal x URSS realizado no Estoril, de homenagem a Alekhine, de12 a 19 de Dezembro de 1990. Da responsabilidade do Gabinete de Imprensa da FPX.

 

Recordações da primeira visita a Portugal

 

Dr. Alexandre Alekhine, Janeiro de 1940

A Passagem do Dr. Alexandre Alekhine pelo nosso país (1940) ou mesmo o seu regresso e o trágico destino que para sempre nos liga (ao morrer no Estoril, em Março de 1946) foram factos que ficaram enraizados na própria história do xadrez nacional. A sua presença, os seus comentários e exibições serviram de modelo a gerações de xadrezistas portugueses e agitaram de tal forma o meio que, pese a conturbada época que se vivia, respondeu com algumas iniciativas editoriais de qualidade (linha que só seria retomada nos anos setenta!). Exclusivamente dedicado às actuações do Dr. Alexandre Alekhine na sua primeira visita a Portugal, foi escrito por Alfredo Araùjo Pereira (Mestre FPX) editado pela Parceria António Maria Pereira, obra já rara em que se registam os adversários que defrontaram o Campeão Mundial e se comentam 21 partidas dessas exibições. Um "pequeno" (tímido?) livre de 74 páginas que constituí um documento único sobre o acontecimento, cujos extractos oferecem a seguinte leitura cronológica:

"Na 2ª sessão jogada no CVasino do Estoril, no dia 24 de Janeiro, perante numerosa assistência, sem ver o tabuleiro, Alekhine, depois de 3 horas e meia de luta venceu todos os adversários. A sua técnica e memória excepcionais maravilharam a assistência, que tributou ao mestre uma formidável ovação. O xadrezista João Moura foi incumbido da ingrata tarefa de 'speaker', da qual se houve acertadamente. Os adversários de Alekhine eram Francisco Lupi, Henrique Mantero, Peter Braumann, Jorge Gonçalves, Álvaro Carvalho, Dr. Miguel de Abreu, Fausto Caldeira e José Ribeiro. Os dois primeiros opuseram ao campeão mundial uma forte resistência".

"No dia 27 de Janeiro jogou-se no Salão de Inverno do Casino do Estoril, uma sessão de 40 partidas simultâneas. (...) Na equipa portuguesa encontravam-se representadas as seguintes agremiações xadrezísticas: Grupo de Xadrez de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Grupo de Xadrez de Coimbra, Faculdade de Ciências de Lisboa, etc. Ao cabo de 5 horas e meia, sem acusar a mais ligeira fadiga, Alekhine, terminou a sessão com o elevado score de 37 partidas ganhas, 1 perdida e 2 empatadas. Coube a Armando Aragão da equipa de Coimbra, a honra de vencer Alekhine. Alves de Aguiar e A. Araújo Pereira, empataram com o mestre."

"A terceira sessão que o Dr. Alexandre Alekhine jogou em Portugal foi realizada na Sociedade de Geografia, no dia 1 de Fevereiro. Na vasta sala Portugal, na presença duma assistência calculada em mais de 600 pessoas, entre as quais se contavam com os corpos directivos da Sociedade de Geografia, Federação Portuguesa de Xadrez e Grupo de Xadrez de Lisboa, o campeão mundial defrontou novamente 40 xadrezistas, os melhores de Portugal. (...) O Dr. Alekhine não encontrou nesta sessão as mesmas facilidades de ganho que obtivera na anterior, jogada no Casino do Estoril. Mais familiarizados com o ilustre visitante, os jogadores nacionais houveram-se melhor, com a vantagem de terem a equipa reforçada. Ao cabo de oito horas e meia de luta, o campeão mundial encontrava-se visivelmente cansado. Os seus formidáveis recursos ainda lhe valeram em bastantes partidas, entre as quais é digna de citação a jogada pelo nóvel xadrezista Peter Braunmann: Um gambito letão, que desorienta o campeão do mundo. Braumann chega a jogar com duas damas, mas apesar disso Alekhine obtem o empate. Gabriel Russel também em posição ganhante vê-se coagido a empatar, pois é o único adversário que Alekhine tem às 5 horas e meia da manhã! O Dr. António Maria Pires, Alves de Aguiar e Artur Cruz batem o mestre! Carlos de Araújo Pires, Gabriel Russel, Peter Braumann, Álvaro Amores, Francisco Lupi, Henrique Mantero, Vírgilio Costa, Jorge Gonçalves e A. Araújo Pereira empatam. Alekhine obtem 28 vitórias, empata 9 partidas e sofre 3 derrotas. A equipa portuguesa reabilita-se um pouco das sessões anteriores!..."

"A última sessão realizada entre nós pelo inolvidável mestre, efectuou-se no dia 10 de Fevereiro na sala do Grupo Xadrez de Lisboa e na presença de numerosa assistência. Alekhine mostrara o desejo de jogar com 8 adversários dos que melhores resultados tinham obtido nas sessões de simultaneas anteriores, tendo em 4 tabuleiros as peças pretas e consentindo aos jogadores nacionais a utilização de relógios. Os adversários de Alekhine forma: Dr. António Maria Pires, Carlos Araújo Pires, Gabriel Russel, Masoni da Costa, Álvaro Amores, Alves de Aguiar, Francisco Lupi e A. Araújo Pereira. Iniciando-se às 20:15, a sessão terminou rapidamente. Às 24:00 todos os adversários do Campeão do Mundo haviam já abandonado."

"Ao pronunciar algumas palavras em resposta ao agradecimento que lhe fora patenteado pelo Dr. António Maria Pires, presidenta da Federação Portuguesa de Xadrez, em nome dos xadrezistas de Portugal, Ronald Silley, presidente da direcção do Grupo de Xadrez de Lisboa, em nome dos sócios do Grupo, o Dr. Alexandre Alekhine teve algumas amáveis palavras para os amadores portugueses, aos quais aconselhou o estudo pormenorizado de bons tratados, para um aproveitável desenvolvimento da suas capacidades latentes, focando a necessidade do contacto com mestres amadores estrangeiros, em competições xadrezísticas que muito contribuirão para o progresso e aproveitamento do xadrez nacional".

Em 30 de Maio de 1947 foi fundado em Lisboa o Grupo de Xadrez Alekhine, que ao longo dos anos tem sido considerado como um dos mais fortes baluartes do xadrez nacional. Pedrosa Franco, Mário Santos e João Amadeu foram os obreiros da fundação deste clube, apesar de na época não passarem de um grupo de entusiastas desconhecidos no meio xadrezístico.

No décimo aniversário da morte do Dr. Alexandre Alekhine (ocorrida na Estoril a 24 de Março de 1946) o Grupo de Xadrez Alekhine de Lisboa tomou a iniciativa de organizar em Portugal uma homenagem em honra do Mestre, com o consentimento da FPX, convidando o conhecido xadrezista Rui Nascimento a evocar o antigo campeão mundial. Segundo se lê em "Xeque Mate" nº 12 da revista portuguesa de xadrez dirigida pelo MI Joaquim Durão: "À magnifica palestra, ouvida com um silêncio emocionante, assistiram os dirigentes máximos do nosso xadrez, engs. Eduardo Pellen e Claudino de Sousa e Faro, Presidentes, respectivamente, da Assembleia Geral e da Direcção da FPX, bem como vários dos nossos melhores jogadores."

Para além do elogio prestado à memória do Dr. Alexandre Alekhine, Rui Nascimento evocou alguns curiosos episódios a que assistiu e que transcrevemos:
    "No Grupo de Xadrez de Lisboa, numa partida de torneio de uma categoria das mais fracas, um jogador ficou com 2 bispos e peões contra torre, mas tão mal jogou que perdeu. Alekhine estava presente e alguém observou: 'Monsieur Alekhine', dois bispos contra torre ganham, não é verdade? Respondeu o Campeão: 'Oui, deux fous gagnent, mais pas trois'. Três 'fous', segundo dizia Alekhine, perdiam. É sabido que 'fou' significa bispo e também louco. O terceiro louco era, portanto, o jogador. (...) Ante a sua técnica todos nós passávamos mais ou menos por 'fous' ".
    "Recordo outro episódio. O Dr. António Maria Pires, primeiro campeão de Portugal, convidou Alekhine para uma partida em sua casa. Como era costume, juntavam-se vários portugueses para combater o Campeão dos Campeões. Carlos Pires, Dr. Gabriel Ribeiro, por vezes o Dr. Mário Machado, o Shirley, o Russel, eu próprio, outros que não recordo, formávamos uma equipa. Ora nessa noite o Dr. Pires descobriu, na sua garrafeira, uma garrafa de vodka, uma especialidade que interessou grandemente o Dr. Alekhine. Manhosamente, o Dr. Pires, cheio de amabilidade, pô-la à disposição do Dr. Alekhine que jogava numa sala àparte, enquanto nós analisávamos noutra. E o Dr. Pires confidenciou: 'aquele vodka é autêntico, é fortíssimo e antes do vigésimo lance o Alekhine já vê 4 reis em lugar de 2'. Jogámos. Alekhine respondia rápido e certo. Bem espremíamos as inteligências; o cerco apertava-se; cada jogada de Alekhine era melhor e, aí pelo lance trinta e tal, estávamos perdidos. Desistimos e, subitamente, o Dr. Pires lembrou-se do vodka. Perdido o jogo, correu a ver se salvava o que pudesse da especialidade russa. Oh maldição! Alekhine bebera tudo! E creio que a bebida nacional o inspirara na partida. O Dr. Pires estava compungido. O 'veneno' não actuara. Alekhine agradeceu o bom acolhimento e 'Bon soir, Messieurs', lá se foi com um arzinho irónico e a mão na região hepática".

Até terem sido trasladados para França, os restos mortais do Dr. Alexandre Alekhine, que hoje repousam no cemitério de Montparnasse (Paris), estiveram guardados num jazigo do Alto de S. João (Lisboa), pertencente ao xadrezista Sr. Manuel Esteves.

 

© 2000-2003, AC Luis de Camões